segunda-feira, 29 de abril de 2019

FESTEJANDO À GRANDE MÃE





                         Foto de Zélia Siqueira



O dia está tão especial que dá vontade de alçar voos nos ares desse céu de anil, com minha varinha de condão, para completar a magia que se instala no passar lento e saboroso das horas, enquanto escrevo, nessa tarde  de uma suave serenidade. Perpassa aqui, uma correte de ar fresco, que impele-me a levantar para conferir o que os meus sentidos já pressentira. 

Há cantos. 

Lá fora bem-te-vis entonam suas agudas vozes. Outros passarinhos menos exóticos, mas não menos em matéria de sonoridade, complementam o coro com seus belos cantos.  O que também moveu-me a levantar, para conferir a obra da natureza. 

Desloco-me até a porta, que dá para o vasto quintal da “Fonte Grande”, tomado pelo verde pino, com variação de luz e sombras, que ressaltam as degradações de verdes. Observo arrebatada, esse laboratório vivo de verde albahaca, verde trebol, verde pera, verde lima. Verde mesmo.

Ainda tomada pela passagem desse dia dela e, sem saber o que fazer com tudo isso que os meus olhos e meu espírito alcançam, começo a cantar com os passarinhos:

"- Iaiá você vai à Penha
Me leva, ô me leva
Eu vou tomar capricho
Meu bem vou trabalhar
Eu tenho uma promessa a pagar
Essa promessa que eu tenho a pagar
É a Santa Padroeira 
Ela vai me ajudar
Essa promessa que eu tenho a pagar
É a Santa Padroeira
Ela vai me ajudar
Ô Iaiá."

Zélia Siqueira – formada em jornalismo (FAESA) e artes (UFES), é fotógrafa, escritora, poeta e pintora.

quinta-feira, 11 de abril de 2019

As noites revelam segredos







                                    Gregório Colbert (fotógrafo e documentarista canadense)



O vento é amigo das noites. Na solidão das horas, quem estará desperto para notar esse enlace orgástico e afetuoso, entre esses dois fenômenos da natureza. Talvez um galo que cante distante. Talvez a coruja que sobrevoa a margem da floresta negra; ou o morcego frugívoro, que polinizam as flores dos bosques e jardins, na espera dos bons frutos.

O certo é que as noites revelam seus segredos perfumados. Mas nem todos estarão aptos a percebê-los. As noites escondem mistérios e encantamentos nas raízes das plantas.

Árvores dançam com o vento; que faz amor com elas e exalam odores perfumados, que seduzem espíritos despertos. E, quando amanhecem os dias, germinam flores e frutos, por todos os horizontes dos campos livres, que só as deusas sabem presenciar, por "saber sem saber".

É a fertilidade mostrando aos homens e mulheres que dormem, mas eles não sabem "entender entendendo", porque estão tomados  pela letargia. Nem sabem sonhar um sonho que nasce da alma, que se alimenta de si mesma.

As noites revelam segredos, que só se escutam em jardins suspensos; quando a poesia nos põe asas para ver o mundo e, contemplando com olhos de pássaros, visitamos florestas mágicas.


Zélia Siqueira – formada em jornalismo (FAESA) e artes (UFES), é fotógrafa, escritora, poeta e pintora.

quinta-feira, 4 de abril de 2019

PAULO FREIRE, O ANDARILHO DA UTOPIA







                                       UMA UTOPIA EM CONSTRUÇÃO

   
                                                                                                Foto de Zélia Siqueira

Uma vez ouvi alguém dizer que falar difícil é fácil, mas que o difícil mesmo é falar fácil. Talvez ai resida a beleza do solo Paulo Freire, o andarilho da utopia, interpretado pelo ator, diretor, palhaço, professor, fundador do Grupo Off-Sina e da Escola Livre de Palhaço (Elispa), Richard Riguetti, com direção de Luiz Antônio Rocha.
O espetáculo reúne uma série de elementos como a simplicidade, desde a dramaturgia, onde Junio Santos faz importantes recortes da obra de Paulo Freire, contextualizando-os e, através de fragmentos de outros dramaturgos como Brecht e Ionesco (diga-se de passagem, o primeiro épico e o segundo absurdo), além de músicas de época e atuais, acaba por propiciar ao público o que há de universal no pensamento do pedagogo.
Da cenografia, nesta mesma linha, não tem nenhuma pretensão ilusionista para com a plateia e a iluminação é tão precisa que em vários momentos ela desaparece para emergir o personagem. Tudo é mostrado às claras, desde os adereços até o espaço cênico que se transforma e muda de lugar na medida em que o ator se movimenta, não tem coxias e nem rotunda e o público está diante do esqueleto do teatro, por dentro.
O mais importante é que esse suposto "distanciamento", ou seja, a consciência de que se está no teatro e que o teatro não é a realidade se resolve numa dialética fundamental, considerando que a estrutura do espetáculo, entendido como um ato "cenopoético", onde reúne linguagens de circo, teatro de palco e de rua, além da poesia, é claro, permite ao espectador se aproximar e até mesmo entrar na obra, na medida em que o ator/personagem Richard Riguetti o convida para compor a cena e que a peça se transforma num ritual e o personagem Paulo Freire se mostra como uma espécie de "contador de causos" que é a sua maneira amorosa de decifrar o mundo que vai de seu quintal às galáxias e das galáxias ao seu quintal, quase como uma brincadeira.
A sinceridade do personagem que se empresta para que a poesia de Paulo Freire desabroche na sua voz, mais a suave e ao mesmo tempo segura direção de Luiz Antônio Rocha revelam a nobreza e a maturidade deste espetáculo, apesar de ainda estar na estreia.
Tendo em vista os tempos que correm, Paulo Freire, o andarilho da utopia, transforma-se num ato de resistência e, ainda mais, uma resistência que enfrenta a truculência com outras armas, ou seja, com o projétil da paz como possibilidade de vazar as nuvens do absurdo da intolerância para atingir o coração com o amor ao conhecimento.
Sim, Paulo Freire será o eterno andarilho, aquele que anda muito, percorre muitas terras e anda de forma erradia para os que não acreditam no sonho. Sim, Paulo Freire é a utopia [do grego "ou" (não) e "topos" (lugar)], a busca permanente e incansável desse lugar ideal onde reina a harmonia entre os indivíduos e o compromisso com o bem-estar da coletividade. Assim, se a utopia é este não-lugar, ou um lugar que não existe, ser andarilho é lutar para ele venha a existir e esse espetáculo está contribuindo com o alicerce desta construção.


- Wilson Coêlho, poeta, ator e diretor teatral.





terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

SER OU NÃO SER




                                   O Semeador - Van Gogh



A moldura do poder seduz e engessa qualquer forma de vida. E esse poder simbólico, que também se expressa em qualquer função, nos roubam a naturalidade de ser. "Ser ou não ser, eis a questão". Ser artista é escolher ser... E ser nesses tempos contraditórios, é uma arte que escapa à multidão ensandecida e disforme.

Vamos tecer os fios que nos conduz à liberdade. Vamos bordar uma paisagem de homens e mulheres livres. Ser ou não ser, eis a questão, da nossa temporalidade. Ou de algo que extrapola a compreensão das massas desprovidas do cheiro de liberdade? Ou seremos esse amálgama que cristaliza uma verdade absoluta e traiçoeira, para com a vida, não nos permitindo sonhar?

“Duas coisas me enchem a alma de crescente admiração e respeito, quanto mais intensa e frequentemente o pensamento delas se ocupa: o céu estrelado sobre mim e a lei moral dentro de mim.” Emmanuel Kant.

O céu estrelado nos permitem ao devaneio criativo, como nas noites estreladas de Van Gogh. E a lei moral, porque o espírito se ocupa e se volta para as coisas belas, com maior intensidade, desvinculando-se de uma egocentricidade.



A alma reclama a indiferença, “Nunca se protele o filosofar quando se jovem, nem canse o fazê-lo quando se é velho, pois que ninguém é jamais pouco maduro nem demasiado maduro pra conquistar a saúde da alma.” Numa fresta de luz, Epicuro lança-nos o desafio atemporal e, ao mesmo tempo nos convoca a ser.

Zélia Siqueira – formada em jornalismo (FAESA) e artes (UFES), é fotógrafa, escritora, poeta e pintora.

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Aventuras de uma nômade




Existem mulheres que viajam o mundo, até depois dos oitenta anos de idade e pretendem chegar aos noventa, nessa aventura de viver. Será que chego lá?






Às vezes me pego pensando se chego a tanto, em minhas viagens de aventuras. A coluna já não colabora. Na última viagem que fiz, fora do país, tive que trocar, meio a contragosto, a mochila por uma bolsa de rodinha, que assemelhava a uma mochila. Mas confesso que não me senti tão confortável quanto se imagina; ao contrário, senti foi falta da minha velha companheira de  vinte e três anos de viagem, que continua muito linda e perfeita.

Alguém pode achar estranho quando digo isso. Mas é verdade. Uma mochila é muito confortável, não se sente tanto o peso da bagagem, desde que as astis sejam bem acolchoadas. E olha que minha mochila é quase do meu tamanho.  Mas o que importa mesmo é a saúde, para continuar. O que é comum a um viageiro, ser dotado de um espírito livre e de um vigor mental e físico invejável. Parece que já tem uma pré-disposição à vida nômade, que lhe permite ir além do horizonte que limita o homem comum.

Viajar é se aventurar para além do seu entorno. Experienciar outros mundos possíveis. Outros cheiros, outros sabores, outras histórias. Conhecer e romper limites. E, sobretudo, aprender e compreender o quão importante é a troca e a solidariedade no caminho.

O imprevisível também nos espreita. Só não podemos deixá-lo nos abater; pois se assemelhando às águias, os viageiros são dotados de uma percepção ágil, e logo sabem como desviar a pedra do caminho. As trocas no percurso, são imensas e, a cordialidade, nunca está de toda ausente.

Os nômades viageiros, são como os pombos-correio, ao cruzarem seu caminho; trazem sempre as notícias de lugares que você nunca alcançou. Te indicam lugares menos arriscados, hospedagens mais confortáveis e ao alcance de seu bolso. Além de muitas vezes, fazerem parte do percurso contigo. E quando alguém se acomete de algum mal estar, sempre se disponibilizam para os cuidados necessários. Formamos elos intransponíveis, até que se possa prosseguir, cada um o seu rumo.  Muitas vezes partilhamos a mesma comida, o mesmo quarto, mas todos em liberdade.




                           Foto de Zélia Siqueira


A última viagem será a mais notável aventura para outra esfera.  Nela partiremos sem o peso da bagagem, porém levaremos a leveza da experienciação, em vida; quando se fez sentido viver.


Zélia Siqueira – formada em jornalismo (FAESA) e artes (UFES), é fotógrafa, escritora, poeta e pintora.







quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Não nos acostumemos com as normalidades inaceitáveis









                        Foto: Zélia Siqueira.


Falei hoje com uma pessoa muito grandiosa. De uma integridade, dignidade e senso de justiça, que raramente se encontra num ambiente de trabalho doentio e fora dele. Discernimento foi o que nunca faltou a essa pessoa; que vou chamá-la aqui, de "Maria." Em tempos de vigília é bom que não se exponha uma pessoa como essa. Por isso dei-lhe o codinome de Maria. Daí penso em Maria, mãe dos filhos de Deus. Maria, protetora dos filhos dos homens. Maria, a amiga verdadeira. A Grande Mãe.

A amiga de que falo aqui, foi a aliada que encontrei, em momentos de enfrentamentos naquele ambiente doentio, de pessoas adoecidas e  muitos, indelicados, onde um dia tive o desprazer de conviver. Por muitos anos em que grande parte de minha vida, passei ali, tive duas aliadas. Uma Maria que me acolheu quando cheguei e outra de mesmo nome, que se colocou ao meu lado, ao sair dali.

Foram longos anos de adoecimento; de perseguições políticas; de assédio moral e sexual; torturas psicológicas; para que me enquadrasse na "caixinha", que enquadram pessoas sem personalidade e sem caráter. Me adoeceram, mas não me dobrei.

No decorrer da minha vida de escrava, me recusei a promoção para representar a empresa na justiça, contra os trabalhadores. Por isso fui tratada como inimiga, e não só por isso. Tiveram inúmeros outros fatos, que vou me poupar de discorrer aqui, porque me é muito doloroso e vocês não têm nada com isso, caros leitores. Se o assunto veio à tona, foi porque, ao falar com a amiga, "Maria", hoje, me peguei pensando como será a vida dos trabalhadores em tempos sombrios, como agora.

Os corpos serão aniquilados com mais requintes de crueldade, com mais intensidade e adoecerão, enquanto as testemunhas silenciarão ou se colocarão ao lado do patrão/poder? Ou teremos a sorte de cruzararem nossos caminhos, Marias amigas, semelhantes à minha, que não se calam diante das injustiças?


Que não nos acostumemos com as chibatadas; com as normalidades inaceitáveis e indelicadas; com as mordaças e com o terror. Sejamos "Marias", para que não estejamos sós.



Zélia Siqueira – formada em jornalismo (FAESA) e artes (UFES), é fotógrafa, escritora, poeta e pintora.



sexta-feira, 2 de novembro de 2018

a fortaleza



No poema “Agroval”, Manoel de Barros narra o que faz uma imensa arraia quando as águas do pantanal secam e põem a vida em risco: a arraia abre suas grandes asas e pousa no barro, retendo parte da água abaixo de si. Entre seu abdômen e o chão úmido a arraia inventa um “pantanal menor”, um pantanal de resistência. Para que a vida não morra, a arraia convida tudo o que vive para vir morar sob suas asas. Migram e se instalam ali não apenas bichos, instalam-se também sementes e brotos de futuras flores, de tal modo que debaixo da arraia tudo o que vive acha um ventre. Sob a proteção da tal Gaia, a vida continua, resiste, cresce, fortalece-se; sob o coração da arraia acontecem alianças, agenciamentos, contágios, enamoramentos da vida por ela mesma, una e múltipla. Até mesmo uma festa se esboça, feito uma Kizomba a celebrar a vida salva pela Vida. Pois lá fora, quando as águas secam, os predadores sorrateiros lucram com a morte, e ficam à espreita. Mas a arraia é forte, resistente, não a vencem os predadores oportunistas. Não seria tal ação da arraia o modo como a própria natureza nos ensina o que é a virtude ético-política que Espinosa chamava de “fortaleza”? Não seria tal comunidade de resistência pela vida a expressão na natureza daquilo que nossos ancestrais, em luta contra a tirania, nomearam Quilombo?

“Poesia pode ser que seja fazer outro mundo” (Manoel de Barros)

"Se roubam a liberdade de um poeta, ele escapa por metáforas” (Manoel de Barros).






Elton Luiz Leite de Souza - Escritor, doutor em filosofia e profo. da UNIRIO - Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro e da Faculdade São Bento do Rio de Janeiro.


segunda-feira, 15 de outubro de 2018

“Guerreiro Zulu”









                                                                                                     Obra de Irineu Ribeiro



A estátua do “Guerreiro Zulu”, monumento eregido em frente à Assembléia Legislativa em homenagem a contribuição do povo afrodescendente, ao desenvolvimento sócio-cultural e econômico do Espírito Santo, é de autoria do artista plástico e escultor afrodescendente, Irineu Ribeiro. A obra “Guerreiro Zulu”, composta pelo busto de um negro, com pescoço alongado, faz alusão ao instrumento musical, casaca. Tal instrumento de percussão, se trata de um ícone representativo de uma importante manifestação cultural capixaba, denominada, Congo – em que o negro é depositário desse saber popular.

Zélia Siqueira – formada em jornalismo (FAESA) e artes (UFES), é fotógrafa, escritora, poeta e pintora.

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

“A grande mãe e os pequeninos”





                                                
                                                                                 Crianças quilombola e indígena


Hoje se comemora o dia da Grande Mãe e de seus filhos pequeninos, que independente da cor ou de raça, são todos iguais, porque são humanos. Crianças que precisam ser amparadas em seus lugares de origem. Como afirmava São Francisco de Assis que “Todos os seres são iguais, pela sua origem, seus direitos naturais e divinos e seu objetivo final”.


Conhecendo um pouco, da história de vida dos povos indígenas, sei da fome que ameaça seus territórios. O mesmo ocorre nos quilombos afetados pelo plantio de eucalipto, onde tudo que se planta, pouco floresce. Vivem sempre a incerteza do que colherá, para matar a fome, nos dias que se seguem. Portanto, reconhecer o direito a terra onde vivem esses povos, é lançar o olhar a milhares de crianças e jovens, é protegê-los da fome, é ser amoroso e generoso para com a vida e com o meio ambiente.


Ao escolher alguém para dirigir esse país, essa nação, é de suma responsabilidade nossa, pensar naquele que melhor representa os desprovidos; os despossuídos, os que passam fome. E os povos originários vivem sempre essa condição vulnerável e de miserabilidade, imposta por aqueles que mais têm e, ainda assim, os ameaçam publicamente, como temos acompanhado nos discursos políticos de certo candidato.


Portanto, sejamos amorosos, nas nossas escolhas, para representante do nosso povo, do nosso país, sejamos franciscanos: “Peço a todos [e todas] que me ouvis que, ao sairdes daqui, não vos mostrais desinteressados pela luz do coração. Procurai, na sequência das horas, melhorar em todos os sentidos e anular o mal que ainda existe em cada um de nós, como princípio de ajuda ao Bem que deseja entrar em nossos corações”.


Zélia Siqueira – formada em jornalismo (FAESA) e artes (UFES), é fotógrafa, escritora, poeta e pintora.

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

TICUMBI: Eu Sou o Rei









A exposição: "Ticumbi: Eu Sou o Rei, de Zélia Siqueira, acontece pela segunda vez, neste mês de setembro, à convite da Universidade Federal do Espírito Santo, naquele espaço acadêmico. A mesma faz parte de um conjunto de eventos culturais e outras exposições que ocorrem na 5ª Conferência Mundial para Combate às Desigualdades Étnico-Raciais.

Quem desejar conhecer um pouco mais da cultura afro-brasileira, representada na exposição do Ticumbi de São Benedito (Baile de Congo de São Benedito), está convidado a comparecer amanhã, das 07:00 às 13:00h, na Biblioteca Central Fernando de Castro Moraes, UFES, sob a direção do Sr. Fabio Massanti Medina. Oportunidade em que poderão acompanhar de perto o Ticumbi de São Benedito, que sairá da exposição, em cortejo, até o vão do ICII, onde fará uma apresentação pública às 14:00h.

O Baile de Congo é uma sequência de discursos poéticos e políticos, danças e cantos, acompanhado de pandeiro e viola. É um festejo que ocorre a mais de duzentos anos, segundo a memória local. Seus integrantes o definem como uma tradição cultural de origem africana; recriada pelos africanos e seus descentes, nas senzalas das fazendas escravocratas, nos quilombos e nas comunidades negras urbanas.

É uma celebração festiva, onde dois reinados, de Congo e de Bamba, travam uma batalha para se ter a vitória sobre a festa para São Benedito.


Zélia Siqueira – formada em jornalismo (FAESA) e artes (UFES), é fotógrafa, escritora, poeta e pintora.



quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Manoel de Barros: a empoética terapêutica




         O poeta precisa alcançar uma língua dos começos, que é sempre começo começando: um começo que nunca termina, um começo que (re)começa a cada vez que o poeta escreve: “Na ponta do meu lápis há apenas nascimento”.
        Os gregos que viveram antes de Platão tinham um nome para esse começo que é sempre começo. Eles o chamavam de “physis”.[1] Convencionou-se traduzir physis por natureza. Contudo, a palavra natureza está viciada por séculos de pensamento objetivista, “coisal”, que parte sempre do já nascido, do já feito: do meio-dia ou, no máximo, da manhã, nunca da aurora. Porém,

Durante as viagens sem rumo dos andarilhos
eles são instalados na natureza igual se fossem uma aurora.[2]
                                                                                    
       Originariamente, physis significa “brotar” ou “desabrochar”. Uma fonte também pode ser uma imagem para a physis, desde que a dessubstantivemos e a apreendamos como verbo: fontanejar. A rosa desabrocha, ela se abre e se oferece à luz, e assim fontaneja.  Não apenas as rosas, várias outras coisas desabrocham, fontanejam.
       Porém, a coisa que desabrocha pode nos fazer esquecer do desabrochar, pode nos cegar para esse processo quase imperceptível aos olhos que apenas veem o “acostumado”. Algo desabrocha na flor que desabrocha, e esse algo  não é a flor, é uma pré-flor, uma pré-coisa. Se captarmos isso que desabrocha na flor, mas que não é flor, veremos nossos próprios olhos desabrocharem, fontanejando, virando visão fontana.[3]
       Se virmos em nossa própria visão o desabrochar da visão que não é apenas a nossa, seremos capazes de ver que tudo é desabrochar de um desabrochar que nunca morre. Veremos fontanejar em nós uma “Canção do ver”.[4] A boca que fala desabrocha, assim como a mão que escreve também fontaneja; igualmente desabrocha a criança que nasce, o sol que se eleva, o afeto no peito, o conhecimento na alma. Tudo desabrocha. Mesmo a alma em silêncio tem o silêncio a lhe desabrochar. Mesmo o homem que morre faz desabrocharem lembranças que dele teremos. Para quem o crê, o homem que morre desabrocha outra coisa.
       Para os gregos, a physis não é o desabrochar disto ou aquilo, mas o desabrochar que se expressa nisto e naquilo, e somente pode mostrar-se desabrochando. A physis desabrocha em cada coisa, desabrochando de si mesma, mantendo ligado a ela o que dela desabrochou. A physis desabrocha não apenas na rosa, na boca que fala, na criança que nasce...mas em tudo, no todo. A physis é o desabrochar que permanece em si mesmo como desabrochar. A physis desabrocha de si mesma e se mostra em cada coisa que dela desabrocha. Na rosa que desabrocha também desabrocham a água que ela sorveu, os minerais do solo que ela sugou, a luz que ela absorveu e também desabrocham através dela os bilhões de anos da terra que a preparou.



Elton Luiz Leite de Souza - Filósofo e profo. da UNIRIO - Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro e da Faculdade São Bento do Rio de Janeiro.



[1] Cf Gerd Borheim, Os filósofos pré-socráticos. São Paulo: Cultrix, 2001.
[2] BARROS apud MÜLLER, 2010, p. 155.
[3] “Canção do ver”, Poemas rupestres, p. 11




                                                                                   (desenho feito por manoel)




Fontes: https://multitudopoesiaartefilosofia.blogspot.com/2018/03/a-empoetica-terapeutica-de-manoel.html
Revista Guavira Letras

domingo, 12 de agosto de 2018

O pão da vida



Não tenho grandes simpatias por datas comemorativas, mas desde muito além de ontem, me pego relembrando do meu velho pai. Às vezes, de pequenos detalhes que passeiam na minha memória, dos tempos em sua companhia, quando vivíamos no campo. De quando viajava na garupa de seu cavalo, em noites de lua, enquanto ouvia suas estórias comoventes, para me entreter do cansaço da longa viagem. Eu, ainda muito pequenina, me envolvia de tal modo que o implorava para contar mais e mais estórias. E era tudo o que ele queria. Aí ele caprichava floreando as estórias da Dona Corochinha; de Guimá e Guimarães, e muitas outras que já nem me recordo mais. Mas o que eu me recordo mesmo, era da emoção que vertia do meu ser pequenino, ao ouvir aquelas estórias tristes e alegres ao mesmo tempo. Porque no final de cada estória tinha sempre uma alegria, que eu aguardava com o coração apertadinho de criança. Sempre tinha um final feliz, como foi a minha vida em sua companhia. .

Mas feliz mesmo era quando Vulcão uivava, nas várias madrugadas de lua cheia, para anunciar as suas chegadas, das longas viagens sem mim. Era na lua cheia que ele sempre escolhia para voltar para casa. Meu pai era um viajor e passava meses longe de casa. Não que ele abandonasse a gente. Ele ia buscar o nosso sustento. E para não esquecer, Vulcão tinha a cor dos meus cabelos e era um cão boiadeiro de um tamanho, coragem e uma força que nunca vi igual. Creio que herdei a coragem do Vulcão. Na bagagem vinha o que mais me alimentava o espírito de artista. Além de ter notado, ainda muito cedo, minhas habilidades criativas, ele soube estimular essa pulsão de vida em mim. Portanto, nunca me faltava material para pintar, desenhar e ler.

Lembro-me de algumas vezes ele me pegar observando passarinhos, besouros multicolores; borboletas. Noutras, as cores das pequenas flores silvestres, da luz que se projetava nas árvores e refletia em suas folhas, sombreando o chão com grafites naturais, que eu os transportava para meus desenhos. Um mundo mágico que se desvendava para mim e ele soube compreender e estimulou, à sua maneira muito sábia, a minha criatividade. Por isso até hoje eu me encanto com as dádivas da natureza.
Pai é aquele que dá amor a uma criança. E o amor vem de várias maneiras. Essas que descrevo aqui, foram o fermento do pão da vida. O pão que me deu vida.




Zélia Siqueira – formada em jornalismo (FAESA) e artes (UFES), é fotógrafa, escritora, poeta e pintora.

sábado, 30 de junho de 2018

"Sou do Tempo que o Futebol era um Esporte Coletivo".



                                                                                 Valizas - Uruguay - Foto de Zélia Siqueira



Sim, aquele futebol de várzea que reunia toda a comunidade nos fins de tarde de domingo; onde as famílias se socializavam e as moças ensaiavam seus namoros discretos. Reinava, naquele ambiente, uma singeleza alegre. 

A pequena menina, com sua bandejinha coberta com um pano rendado tão branquinho como a cor das cocadas de coco, que vendia no futebol de várzea, gritava: Olha o doce, sinta o doce que adoça a alma... Mas quem tinha a alma dulce, era ela, e nem notava.

Mal sabia que o que adoçaria sua própria alma, eternamente apaixonada, era o futebol de várzeas. Foi quando começou a jogar com seus irmãos e primos. Mas logo descobriu os livros, e acreditou que através deles podia voar. Alçou voo mundo afora.  E num eterno voo rasante, continua descobrindo futebol de várzeas, em secretos jardins, que nenhuma copa iguala.


Em Valizas, fronteira com o Cabo Apolônio, a cena que se revela, já anuncia que onde há futebol de várzeas, se tem os melhores em campo. Quem sabe os campeões. Em terras onde a democracia é um imperativo; onde há liberdade; homens e mulheres conscientes; por si só já são campeões do mundo!

E viva Pepê e viva a democracia.



Zélia Siqueira – formada em jornalismo (FAESA) e artes (UFES), é fotógrafa, escritora, poeta e pintora.