sexta-feira, 2 de novembro de 2018

a fortaleza



No poema “Agroval”, Manoel de Barros narra o que faz uma imensa arraia quando as águas do pantanal secam e põem a vida em risco: a arraia abre suas grandes asas e pousa no barro, retendo parte da água abaixo de si. Entre seu abdômen e o chão úmido a arraia inventa um “pantanal menor”, um pantanal de resistência. Para que a vida não morra, a arraia convida tudo o que vive para vir morar sob suas asas. Migram e se instalam ali não apenas bichos, instalam-se também sementes e brotos de futuras flores, de tal modo que debaixo da arraia tudo o que vive acha um ventre. Sob a proteção da tal Gaia, a vida continua, resiste, cresce, fortalece-se; sob o coração da arraia acontecem alianças, agenciamentos, contágios, enamoramentos da vida por ela mesma, una e múltipla. Até mesmo uma festa se esboça, feito uma Kizomba a celebrar a vida salva pela Vida. Pois lá fora, quando as águas secam, os predadores sorrateiros lucram com a morte, e ficam à espreita. Mas a arraia é forte, resistente, não a vencem os predadores oportunistas. Não seria tal ação da arraia o modo como a própria natureza nos ensina o que é a virtude ético-política que Espinosa chamava de “fortaleza”? Não seria tal comunidade de resistência pela vida a expressão na natureza daquilo que nossos ancestrais, em luta contra a tirania, nomearam Quilombo?

“Poesia pode ser que seja fazer outro mundo” (Manoel de Barros)

"Se roubam a liberdade de um poeta, ele escapa por metáforas” (Manoel de Barros).






Elton Luiz Leite de Souza - Escritor, doutor em filosofia e profo. da UNIRIO - Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro e da Faculdade São Bento do Rio de Janeiro.


segunda-feira, 15 de outubro de 2018

“Guerreiro Zulu”









                                                                                                     Obra de Irineu Ribeiro



A estátua do “Guerreiro Zulu”, monumento eregido em frente à Assembléia Legislativa em homenagem a contribuição do povo afrodescendente, ao desenvolvimento sócio-cultural e econômico do Espírito Santo, é de autoria do artista plástico e escultor afrodescendente, Irineu Ribeiro. A obra “Guerreiro Zulu”, composta pelo busto de um negro, com pescoço alongado, faz alusão ao instrumento musical, casaca. Tal instrumento de percussão, se trata de um ícone representativo de uma importante manifestação cultural capixaba, denominada, Congo – em que o negro é depositário desse saber popular.

Zélia Siqueira – formada em jornalismo (FAESA) e artes (UFES), é fotógrafa, escritora, poeta e pintora.

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

“A grande mãe e os pequeninos”





                                                
                                                                                 Crianças quilombola e indígena


Hoje se comemora o dia da Grande Mãe e de seus filhos pequeninos, que independente da cor ou de raça, são todos iguais, porque são humanos. Crianças que precisam ser amparadas em seus lugares de origem. Como afirmava São Francisco de Assis que “Todos os seres são iguais, pela sua origem, seus direitos naturais e divinos e seu objetivo final”.


Conhecendo um pouco, da história de vida dos povos indígenas, sei da fome que ameaça seus territórios. O mesmo ocorre nos quilombos afetados pelo plantio de eucalipto, onde tudo que se planta, pouco floresce. Vivem sempre a incerteza do que colherá, para matar a fome, nos dias que se seguem. Portanto, reconhecer o direito a terra onde vivem esses povos, é lançar o olhar a milhares de crianças e jovens, é protegê-los da fome, é ser amoroso e generoso para com a vida e com o meio ambiente.


Ao escolher alguém para dirigir esse país, essa nação, é de suma responsabilidade nossa, pensar naquele que melhor representa os desprovidos; os despossuídos, os que passam fome. E os povos originários vivem sempre essa condição vulnerável e de miserabilidade, imposta por aqueles que mais têm e, ainda assim, os ameaçam publicamente, como temos acompanhado nos discursos políticos de certo candidato.


Portanto, sejamos amorosos, nas nossas escolhas, para representante do nosso povo, do nosso país, sejamos franciscanos: “Peço a todos [e todas] que me ouvis que, ao sairdes daqui, não vos mostrais desinteressados pela luz do coração. Procurai, na sequência das horas, melhorar em todos os sentidos e anular o mal que ainda existe em cada um de nós, como princípio de ajuda ao Bem que deseja entrar em nossos corações”.


Zélia Siqueira – formada em jornalismo (FAESA) e artes (UFES), é fotógrafa, escritora, poeta e pintora.

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

TICUMBI: Eu Sou o Rei









A exposição: "Ticumbi: Eu Sou o Rei, de Zélia Siqueira, acontece pela segunda vez, neste mês de setembro, à convite da Universidade Federal do Espírito Santo, naquele espaço acadêmico. A mesma faz parte de um conjunto de eventos culturais e outras exposições que ocorrem na 5ª Conferência Mundial para Combate às Desigualdades Étnico-Raciais.

Quem desejar conhecer um pouco mais da cultura afro-brasileira, representada na exposição do Ticumbi de São Benedito (Baile de Congo de São Benedito), está convidado a comparecer amanhã, das 07:00 às 13:00h, na Biblioteca Central Fernando de Castro Moraes, UFES, sob a direção do Sr. Fabio Massanti Medina. Oportunidade em que poderão acompanhar de perto o Ticumbi de São Benedito, que sairá da exposição, em cortejo, até o vão do ICII, onde fará uma apresentação pública às 14:00h.

O Baile de Congo é uma sequência de discursos poéticos e políticos, danças e cantos, acompanhado de pandeiro e viola. É um festejo que ocorre a mais de duzentos anos, segundo a memória local. Seus integrantes o definem como uma tradição cultural de origem africana; recriada pelos africanos e seus descentes, nas senzalas das fazendas escravocratas, nos quilombos e nas comunidades negras urbanas.

É uma celebração festiva, onde dois reinados, de Congo e de Bamba, travam uma batalha para se ter a vitória sobre a festa para São Benedito.


Zélia Siqueira – formada em jornalismo (FAESA) e artes (UFES), é fotógrafa, escritora, poeta e pintora.



quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Manoel de Barros: a empoética terapêutica




         O poeta precisa alcançar uma língua dos começos, que é sempre começo começando: um começo que nunca termina, um começo que (re)começa a cada vez que o poeta escreve: “Na ponta do meu lápis há apenas nascimento”.
        Os gregos que viveram antes de Platão tinham um nome para esse começo que é sempre começo. Eles o chamavam de “physis”.[1] Convencionou-se traduzir physis por natureza. Contudo, a palavra natureza está viciada por séculos de pensamento objetivista, “coisal”, que parte sempre do já nascido, do já feito: do meio-dia ou, no máximo, da manhã, nunca da aurora. Porém,

Durante as viagens sem rumo dos andarilhos
eles são instalados na natureza igual se fossem uma aurora.[2]
                                                                                    
       Originariamente, physis significa “brotar” ou “desabrochar”. Uma fonte também pode ser uma imagem para a physis, desde que a dessubstantivemos e a apreendamos como verbo: fontanejar. A rosa desabrocha, ela se abre e se oferece à luz, e assim fontaneja.  Não apenas as rosas, várias outras coisas desabrocham, fontanejam.
       Porém, a coisa que desabrocha pode nos fazer esquecer do desabrochar, pode nos cegar para esse processo quase imperceptível aos olhos que apenas veem o “acostumado”. Algo desabrocha na flor que desabrocha, e esse algo  não é a flor, é uma pré-flor, uma pré-coisa. Se captarmos isso que desabrocha na flor, mas que não é flor, veremos nossos próprios olhos desabrocharem, fontanejando, virando visão fontana.[3]
       Se virmos em nossa própria visão o desabrochar da visão que não é apenas a nossa, seremos capazes de ver que tudo é desabrochar de um desabrochar que nunca morre. Veremos fontanejar em nós uma “Canção do ver”.[4] A boca que fala desabrocha, assim como a mão que escreve também fontaneja; igualmente desabrocha a criança que nasce, o sol que se eleva, o afeto no peito, o conhecimento na alma. Tudo desabrocha. Mesmo a alma em silêncio tem o silêncio a lhe desabrochar. Mesmo o homem que morre faz desabrocharem lembranças que dele teremos. Para quem o crê, o homem que morre desabrocha outra coisa.
       Para os gregos, a physis não é o desabrochar disto ou aquilo, mas o desabrochar que se expressa nisto e naquilo, e somente pode mostrar-se desabrochando. A physis desabrocha em cada coisa, desabrochando de si mesma, mantendo ligado a ela o que dela desabrochou. A physis desabrocha não apenas na rosa, na boca que fala, na criança que nasce...mas em tudo, no todo. A physis é o desabrochar que permanece em si mesmo como desabrochar. A physis desabrocha de si mesma e se mostra em cada coisa que dela desabrocha. Na rosa que desabrocha também desabrocham a água que ela sorveu, os minerais do solo que ela sugou, a luz que ela absorveu e também desabrocham através dela os bilhões de anos da terra que a preparou.



Elton Luiz Leite de Souza - Filósofo e profo. da UNIRIO - Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro e da Faculdade São Bento do Rio de Janeiro.



[1] Cf Gerd Borheim, Os filósofos pré-socráticos. São Paulo: Cultrix, 2001.
[2] BARROS apud MÜLLER, 2010, p. 155.
[3] “Canção do ver”, Poemas rupestres, p. 11




                                                                                   (desenho feito por manoel)




Fontes: https://multitudopoesiaartefilosofia.blogspot.com/2018/03/a-empoetica-terapeutica-de-manoel.html
Revista Guavira Letras

domingo, 12 de agosto de 2018

O pão da vida



Não tenho grandes simpatias por datas comemorativas, mas desde muito além de ontem, me pego relembrando do meu velho pai. Às vezes, de pequenos detalhes que passeiam na minha memória, dos tempos em sua companhia, quando vivíamos no campo. De quando viajava na garupa de seu cavalo, em noites de lua, enquanto ouvia suas estórias comoventes, para me entreter do cansaço da longa viagem. Eu, ainda muito pequenina, me envolvia de tal modo que o implorava para contar mais e mais estórias. E era tudo o que ele queria. Aí ele caprichava floreando as estórias da Dona Corochinha; de Guimá e Guimarães, e muitas outras que já nem me recordo mais. Mas o que eu me recordo mesmo, era da emoção que vertia do meu ser pequenino, ao ouvir aquelas estórias tristes e alegres ao mesmo tempo. Porque no final de cada estória tinha sempre uma alegria, que eu aguardava com o coração apertadinho de criança. Sempre tinha um final feliz, como foi a minha vida em sua companhia. .

Mas feliz mesmo era quando Vulcão uivava, nas várias madrugadas de lua cheia, para anunciar as suas chegadas, das longas viagens sem mim. Era na lua cheia que ele sempre escolhia para voltar para casa. Meu pai era um viajor e passava meses longe de casa. Não que ele abandonasse a gente. Ele ia buscar o nosso sustento. E para não esquecer, Vulcão tinha a cor dos meus cabelos e era um cão boiadeiro de um tamanho, coragem e uma força que nunca vi igual. Creio que herdei a coragem do Vulcão. Na bagagem vinha o que mais me alimentava o espírito de artista. Além de ter notado, ainda muito cedo, minhas habilidades criativas, ele soube estimular essa pulsão de vida em mim. Portanto, nunca me faltava material para pintar, desenhar e ler.

Lembro-me de algumas vezes ele me pegar observando passarinhos, besouros multicolores; borboletas. Noutras, as cores das pequenas flores silvestres, da luz que se projetava nas árvores e refletia em suas folhas, sombreando o chão com grafites naturais, que eu os transportava para meus desenhos. Um mundo mágico que se desvendava para mim e ele soube compreender e estimulou, à sua maneira muito sábia, a minha criatividade. Por isso até hoje eu me encanto com as dádivas da natureza.
Pai é aquele que dá amor a uma criança. E o amor vem de várias maneiras. Essas que descrevo aqui, foram o fermento do pão da vida. O pão que me deu vida.




Zélia Siqueira – formada em jornalismo (FAESA) e artes (UFES), é fotógrafa, escritora, poeta e pintora.

sábado, 30 de junho de 2018

"Sou do Tempo que o Futebol era um Esporte Coletivo".



                                                                                 Valizas - Uruguay - Foto de Zélia Siqueira



Sim, aquele futebol de várzea que reunia toda a comunidade nos fins de tarde de domingo; onde as famílias se socializavam e as moças ensaiavam seus namoros discretos. Reinava, naquele ambiente, uma singeleza alegre. 

A pequena menina, com sua bandejinha coberta com um pano rendado tão branquinho como a cor das cocadas de coco, que vendia no futebol de várzea, gritava: Olha o doce, sinta o doce que adoça a alma... Mas quem tinha a alma dulce, era ela, e nem notava.

Mal sabia que o que adoçaria sua própria alma, eternamente apaixonada, era o futebol de várzeas. Foi quando começou a jogar com seus irmãos e primos. Mas logo descobriu os livros, e acreditou que através deles podia voar. Alçou voo mundo afora.  E num eterno voo rasante, continua descobrindo futebol de várzeas, em secretos jardins, que nenhuma copa iguala.


Em Valizas, fronteira com o Cabo Apolônio, a cena que se revela, já anuncia que onde há futebol de várzeas, se tem os melhores em campo. Quem sabe os campeões. Em terras onde a democracia é um imperativo; onde há liberdade; homens e mulheres conscientes; por si só já são campeões do mundo!

E viva Pepê e viva a democracia.



Zélia Siqueira – formada em jornalismo (FAESA) e artes (UFES), é fotógrafa, escritora, poeta e pintora.

terça-feira, 15 de maio de 2018

MAI 68 NA FRANÇA - Maio de 68 na França = 50 anos










Greve geral. Gente e mais gente desfilando nas ruas de Paris e de toda cidade que tinha uma universidade. Todo mundo analisando o que queria dizer: ser francês em 1968, numa sociedade próspera e dita de consumo. E logo o que surgia desses diálogos, era justamente uma revolta contra essa sociedade unidimensional. Era o advento do homem unidimensional de M. Marcuse.

Para a geração dos meus pais, depois das privações e dos traumas da guerra mundial e a humilhação da ocupação alemã, não era compreensível que se pudesse revoltar numa sociedade onde o cidadão vivia bem; com salário descente, com assistência da medicina gratuita e outras vantagens. O operário muitas vezes tinha um carro. Mas para nós, os filhos da geração da guerra; aqueles que como eu tinha 20 anos em 68, era uma verdadeira primavera e o ápice do movimento foi maio de 68. O mês da primavera. Nós florescemos como as cerejas! Eu senti pela primeira vez, qual era o cheiro da liberdade.

A chamada sociedade de consumo era, aparentemente, de veludo. Mas esse veludo escondia um jogo de pregos e de injeção que era chamado pelos revoltados, de alienação. Quem foi a cabeça do movimento foram os estudantes das Universidades, depois os operários e até os estudantes dos Liceus. A gente descobria a liberdade que teoricamente está no estatuto da França, mas que na prática vivíamos num estado altamente vigiado.  Essa liberdade era de plástico. Era uma sociedade altamente racional, na qual qualquer palavra ou gesto diferente, era considerado como manifestação de um surto psicótico. Não ia para a cadeia, mas ao manicômio.

E eu, como estudante apaixonado pelo conhecimento, sentia como diz Freund, um mal estar na civilização francesa e ocidental. Mas ficava na minha; só explodia de vez em quando, contra os professores, o que praticamente ninguém fazia antes de 1968. O resultado é que eu era catalogado como um cara meio maluco, tanto pelos estudantes, quanto pelos professores. 

O movimento de 68, no plano da Universidade, era contra o que se falava que era, “um curso magistral” – de um lado o professor com “todo saber” e do outro o estudante epistemologicamente virgem, curvado sobre seus cadernos anotando a voz do mestre. Diálogo não havia, fora com um ou dois professores não convencionais.

Mas maio de 68 ia muito mais longe que uma revolta no palácio do saber. Era uma revolta contra a sociedade de consumo na qual o homem se transforma no objeto que ele comprou. O caso mais evidente era o carro. Objeto-fetiche por excelência, que serviu para construir barricadas naquela velha tradição das revoluções de 1830, 1848 e 1870. Os tempos mudaram; os carros serviam a uma causa nobre e explicitava a revolta justamente com o totem principal da sociedade de consumo: o carro.

Obviamente, nossos pais que até quase passaram fome durante a guerra e que viveram essa guerra de uma maneira que podia ser traumática (meu pai, preso pelos alemães, ficou um ano, talvez mais na Austria), não entendiam essa revolta de meninos mimados. Durante os “acontecimentos”, como se diziam na área governamental e na mídia, fui até contra o movimento, vendo nos meus colegas uma revolta de meninos mimados que faziam discursos imensos com uma “fraseologia” marxista cheio de clichês, como Rádio Tirana, da capital da Albânia comunista, mas pró-maoista e inimiga da União Soviética. Esses revoltados eram tão alienados como o Zé Mané de plantão. E o resultado é que eu fiquei revoltado contra a sociedade de consumo, mas também contra os que eram contra ela - um revoltado contra a própria revolta – o que fez com que os “revolucionários” de plantão e de livros me olhassem de uma maneira oblíqua, não sabendo onde me colocar naquele maniqueísmo que se tornou a França em 68: a favor ou contra. E eu estava contra. A favor e contra os que eram contra. Esse maniqueísmo é típico de pessoas que não pensam por si, mas pelas convenções sociais ou através de um prêt-à-porter: uma ideologia.

Mas há de reconhecer que Maio de 68 na França, fez que finalmente os franceses falassem uns com os outros, porque com a sociedade de consumo o consumidor perde a fala; perde a própria identidade e o valor de uma pessoa se mede através da sua aparência: roupa e, sobretudo, o carro. Objeto-fetiche por excelência; o refrão americano = vencer na vida: The Winner. A arte conhecimento não valia mais nada ou devia seguir Diktat uma ideologia.

Uma sociedade desse tipo é condenada a todo tipo de alienação, onde temos uma loucura coletiva e uns rituais coletivos que nos levam até alguns milênios atrás: na horda primitiva onde o pai é assassinado pelos filhos. A revolta de 68 tem esse lado psicanalítico da juventude se revoltando contra o pai: o general Charles de Gaulle, presidente da república. Grande estadista,  mas incapaz de entender essa revolta. O tempo passa e a história coloca os heróis nos sarcófagos da pátria.

Houve uma mudança de mentalidade em relação à sexualidade (pílula) e a exaltação do erotismo nos filmes e na TV. Mas para mim nada mudou; era aquela França rançosa, com o espírito pequeno. Minha revolta recusava todo tipo de leitura. Por isso, como tantos outros, peguei o caminho da Índia para ver se lá, neste país meio mítico, para um ocidental, eu pudesse ver em ação, a realidade do espírito: a busca da chave perdida do “fenômeno humano”.

De uma certa maneira essa viagem e outras na Ásia, na África e na América do Sul me mostraram uma sociedade que não tinha perdido o senso ou sentido dos mitos. A França cartesiana tinha tentado me castrar na minha imaginação e na busca do mito. Mais longe ainda que a imaginação: precisava de uma nova maneira de pensar objetivamente, mas sem a razão ou essa, como pequeno ponto
  de apoio, em certos casos.

E o espetáculo de ver humanos adorando um elefante sagrado e nutrindo os ratos como ajudante do Deus Genesh (de cabeça de elefante) – milhares de ratos – e esse grupo religioso que colocava uma proteção – pequeno pano diante de sua boca  para não engolir os micróbios – não para se proteger, mas para não prejudicar os micróbios. Se você vai à Índia, ao sair de lá não será mais o mesmo.

Maio de 68 parecia tão pequeno diante dos Deuses Indianos, que me dei conta de que a França e a Europa em geral, são apenas uma parte menor da Ásia e que o centro energético dessa se situa na Índia, na China, no Tibete e outros lugares, mas principalmente esses.

Quando voltei na França (71), havia ainda, de uma certa maneira, a continuação de Maio de 68, mas no fim da década de 70 o movimento foi digerido e até usado como produto (cartaz, livros, fotos de 68) completamente pervertido pelo poder do vovô de Gaulle e seus filhos Pompidou e Giscard d´Estaing. 
 A França voltou a sua normalidade de alienação e 68 foi absolvido como produto. Os líderes, como Cohn-Bendit, era deputado ou senador na Alemanha (seu país).

Quando “desembarquei” em Paris em 83, vindo do Piauí, compreendi logo que 68 estava morto e enterrado. Por isso que eu e mais alguns somos dinossauros: fósseis testemunhas de uma época que não existe mais. Tenho saudade daquela paixão de se expressar e de colocar na mesa de cirurgião a velha França, cada vez mais esclerosada. Marianne (símbolo da República) chora. Eu não choro porque já esgotei minha reserva de lágrimas nas atribulações da minha vida.

Mas sem 68, provavelmente não seria eu aquele que eu sou. 68 foi um relógio, uma bomba-relógio que explodiu meu pobre eu francês, pequeno e raquítico e me abriu para o mundo. Para o melhor e para o pior. 68 morreu – sim – mas ele já está ressurgindo devagar e com mais violência. Estou dizendo: se prepara que dessa vez vai ser uma revolta sem o amor do próximo.

Gilbert Chaudanne – Escritor, pintor,  crítico de arte e de literatura.


sexta-feira, 23 de março de 2018

Ticumbi de Conceição: A realeza negra emergindo nas grandes noites







                    Mestre Tertolino Balbino (Terto), em primeiro plano; seguido do contra-guia Berto e primeiro congo, Domingos(Pintinho).




Nas noites de quarta e quinta-feira, dessa semana que se finda, o Sesc  Gloria, recebeu o glorioso Baile de Gongo de São Benedito, denominado Ticumbi de Mestre Terto (Tertolino Balbino), de Conceição da Barra; numa parceria inédita, onde prevaleceu a troca de saberes. O Ticumbi de São Benedito, emprestou seu brilho ao subir ao palco do teatro do Sesc Glória, juntamente com a Orquestra Sinfônica do Estado do Espírito Santo, sob a regência do maestro titular, Helder Trefzger.

A sensibilidade artística, do maestro Helder Trefzger, o potencializou para conceber esse projeto valioso, que traduziu nesse grande encontro de troca de saberes, importantíssimo para a cultura, e para reafirmar a potência  afro-brasileira representada, imponentemente, no Baile de Congo de São Benedito dos pretos. Foi de uma emoção transbordante e uma alegria imensa de se ver o Ticumbi brilhar no palco do grande teatro, com uma estética do belo numa harmonia entre o erudito e o popular. Era a realeza negra, com suas cores negadas pelo homem branco; com suas coroas de flores emergindo na grande noite.

Tem toda razão o antropólogo e professor, Jefferson Gonçalves Correia, ao afirmar que, "a carga simbólica desse encontro é muito grande". Certamente, a sua grandeza se deve muito ao simbolismo presente nas tradições culturais e religiosas das comunidades afro-brasileiras, do Sapê do Norte; preservados graças ao empenho de grandes mestres do passado, que partiram para a eternidade e deixaram o seu legado. Legado esse que graças a sabedoria do também grande Mestre, Tertolino Balbino, que desde 1954, como guardião da dança e da tradição que rege o Ticumbi de São Benedito, juntamente com os demais congos, o mantém até os dias atuais.

O Baile de Congo de São Benedito, além de se ter uma dimensão simbólica espiritual, tem também uma dimensão social para a comunidade do Sapê do Norte, que carrega em si suas crenças e costumes tradicionais. Embora, equivocadamente, haja interpretações de que se trata do folclore capixaba. "Houve e há toda uma tendência de ver essas manifestações do Ticumbi como algo "folclórico". Ora, esse "folclore" é quase sinônimo de pitoresco; e o pitoresco é um Brasil para inglês ver e não um "Brasil-Brasil", que realmente se nutre de um conhecimento infuso, simbólico do mundo iniciático até." Observou, sabiamente, Gilbert Chaudanne, escritor, pintor e crítico literário. Por décadas o Ticumbi é um símbolo da religiosidade e da resistência cultural do povo quilombola do norte do Estado do Espírito Santo.

Que fique decretado o enterro dessa expressão "folclore", para denominar uma manifestação da grandeza do Baile de Congo de São Benedito. "O Ticumbi é uma cerimônia [do sincretismo religioso], e como tal chama a si forças que são da ordem do indizível." Afirmou Gilbert Chaudanne.



                                          Orquestra Sinfônica do Espírito Santo e o Ticumbi de São Benedito


E viva São Benedito, e viva o Bale de Congo e a Orquestra Sinfônica do Espírito Santo!


Zélia Siqueira – formada em jornalismo (FAESA) e artes (UFES), é fotógrafa, escritora, poeta e pintora.



sexta-feira, 9 de março de 2018

A situação de extrema pobreza no Estado do Espirito Santo




É preocupante a forma como vem aumentando o número de desabrigados nas ruas de Vitória,ES. Crianças, jovens, idosos, todos sofrendo as consequências do descaso com aquilo que é mais importante: o respeito aos direito de cada ser humano.

Um estudo feito pelo Instituto Jones dos Santos Neves,  mostrou que mais de 39% dos capixabas inscritos no Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal, vivem em situação de extrema pobreza. 

A pesquisa, denominada “Perfil da Pobreza no Espírito Santo: famílias inscritas no CadÚnico” mostrou, ainda, que os municípios que apresentaram as dez maiores taxas de pobreza foram: Água Doce do Norte (84,3%), Irupi (83,9%), Ibitirama (83%), Muqui (81,3%), Pedro Canário (80,8%), Brejetuba (80,5%), Mantenópolis (79,1%), Guaçuí (78,8%), Sooretama (77,3%), Alto Rio Novo (76,5%). 

Um agravante vem tornar essa situação mais dolosa: a crise politica que se instalou no Brasil nesses últimos anos.

Saíram de cena os debates sobre a erradicação da pobreza, o investimento em educação, os programas de governo para contemplar essas questões sociais que penalizam os milhões que não têm acesso aos direitos básicos.

É de se perguntar: não está na hora de haver uma mudança radical nestas eleições de 2018?

Caso esse congresso não seja renovado nestas eleições, caso os mesmos que ocupam cadeiras nas Câmaras dos deputados e senado não forem defenestrados pelo voto, o espectro das mazelas sociais que grassam nas pequenas e grandes cidades tenderá a  aumentar cada vez mais.

Zélia Siqueira – formada em jornalismo (FAESA) e artes (UFES), é fotógrafa, escritora, poeta e pintora.

domingo, 4 de março de 2018

JIM MORRISON, RIMBAUD - The Doors of the 'Temporada no Inferno'.



A um século de distância dois irmãos revoltados, mais que revoltados, transtornados diante de um mundo dito moderno; cuja principal preocupação é o TER e não o SER. E o TER leva aonde? A um bando de descerebrados dirigindo automóveis e outras máquinas e que não sabem se são homens ou máquinas.

Daí a explosão dos poetas “machos”; numa sociedade de cachorros molhados, comprados pelas grandes empresas e amansados pelos padres em nome de Deus e da “First national citybank “.

A mesma revolta, na pureza da sua violência, provocada pelo estupro perpetrado pela chamada sociedade industrial = a nova escravidão. As férias: a guerra! Tudo isso abençoado pelos Ministros do Deus de Amor e do seu filho: “Ama-se uns aos outros”... com balas.

Rimbaud, no contexto da guerra franco-prussiana de 1870/1871; Morrison, no contexto da guerra do Vietnam com seu Napalm. As torturas perpetradas pelos americanos, a bordelização geral da sociedade do Vietnam, do Laos, do Camboja. Eu estava lá, no Laos.

Obviamente esses dois poetas não são homens proletários. São puros demais, até nas suas injúrias. Mas justamente eles se revoltam em nome da justiça. Não que seja  formal, de preto, como os enterros; mas a justiça que pisa no sangue das crianças mortas.

O que nossos poetas querem não é o horror da guerra,  mas a beleza dos sexos; das penetrações dos sexos e não da penetração das balas. Porque aqueles que promovem essas guerras são desequilibrados no plano sexual, pelo puritanismo cristão ou marxista. Quem passa o tempo a fazer amor não faz guerra. É o que os hippies na época falavam com ingenuidade, mas com razão, absolutamente.

Quem foi à guerra nunca volta. Mesmo se é vivo, ele está morto por dentro, (ou volta “normal” porque é débil mental). Só os mais ignorantes se vangloriam de ter ido à guerra e de ter matado. Talvez não contam as safadezas: estupros, morte de mulher e crianças; torturas que fizeram.

Não quer dizer que os comunistas do Vietnam do Norte eram uns santinhos. Era outra variação sobre o tema morte e safadezas, estupro.

Que desses horrores pode-se extrair poesia; aí que está o x da questão. Mas é simples, a poesia não é “a Rosa ausente de todos os Bouquets”, como queria Mallarmé. A poesia pode ser a bala que vai matar os vendedores de escravos, dos dois lados: capitalistas e comunistas.

A poesia pode ser violência e em certas épocas, como aquelas de Rimbaud e Jim Morrison, ela tem que ser violência ou pelo menos traumática e criar a conscientização. Em geral as poesias escritas aos grandes chefes, Hitler ou Stalin, são boas para limpar a parte inferior do nosso corpo; porque a poesia exige algo que se parece com a justiça, pelo menos em símbolos, já que a justiça em si é uma abstração ou uma perversão, para alguns casos de pureza jurídica.

É um erro achar que Jim Morrison era apenas um rockeiro, (aliás o rock é algo incontornável), há de se reconhecer nele um poeta. Ver a música “This is the End”, que quase não é cantada no início; à maneira de Bertold Brechet, com seu “Sprachgesang”, mas que termina numas explosões de bombas. Algo belo e insuportável, como o último movimento da nona sinfonia de Beethoven. 

O problema é que o grande público acha que a poesia é um delicioso chocolate suíço, que se saboreia no seu quartinho “fora do mundo”. Há a poesia de Baudelaire que diz: “Anywhere out of the world".

De qualquer maneira, todo homem dotado de uma sensibilidade mais ou menos equilibrada se torna louco. Não porque ele tem problemas, mas porque ele vive num mundo que é louco. É só pegar as "informações" na TV ou no Jornal e se você é normal, se dá conta de que estamos vivendo num manicômio, no chamado "mundo moderno", sobre o qual Rimbaud já tinha dúvida no que se refere a sua saúde mental. E que, com Morrison, num país em que é a excrecência tétrica do espírito ocidental (EUA), esse "mundo moderno" criou o homem unidimensional (H. Marcuse); o homem sem interioridade; o homem oco (TS. Eliot).

Diante dessa situação, os que são bem vivos como Jim, Arthur Rimbaud e suas gerações, representam uma ameaça para o "sistema".

A morte de Jim Morrison, em Paris, é cercada de mistério; já que usando heroína e fiscalizado pela CIA, um desses pastores SS pode ter colocado um veneno no pó. Curiosamente, Jimi Hendrix, Janis Joplin, toda essa geração morre, oficialmente, de overdose. Mas os EUA não tem por acaso, como animal totem, a Águia - que é um predador.

No caso de Rimbaud, seu talento voava alto demais para os pilares de cabarets, que se auto-denominava poeta em Paris e passou despercebido. Por isso e por outras razões mais profundas, ele jogou sua poesia no lixo e foi traficante de armas na África. Logo ele que detestava espírito bélico, parece se renegar - uma espécie de suicídio mental, fazendo enormes esforços para ficar rico. Já que ele entendeu que quem tinha razão eram os que tinham dinheiro e, consequentemente, poder - a justiça: "o rico só tem problemas, o pobre é louco e marginal".

Rimbaud saía da "Commune de Paris", na França, (Revolução de 1870/71) e Morrison fazia parte de um Império, (A Águia), que se dizia República, mas que visava a dominação universal. Nos dois casos é um grito de liberdade - num país, a França, que tem essa "libertê" no seu hino nacional e num outro, os EUA, que tem uma enorme estátua da liberdade como entrada no país - presente da França. Dá para ver que os "mafiosos" da liberdade trabalham de mãos dadas.

Tanto Morrison como Ribaud, terminam tragicamente e, logicamente no fragelo.

Nestes dois países, que cantavam a liberdade, se praticou guerras de colonização com massacre e tortura. E como o poeta é a antena da vez, ele é o primeiro a avisar que tudo isso é cinismo puro da civilização ocidental. USA=NAPALM - FRANÇA=TORTURA NA ARGÉLIA.

Se Deus é Brasileiro, o diabo é americano e o francês é quadrado.


Gilbert Chaudanne - escritor, pintor, crítico de arte e de literatura




terça-feira, 12 de dezembro de 2017

ENCONTRO INDÍGENA, REAFIRMA A IMPORTÂNCIA DA RELIGIOSIDADE E ESPIRITUALIDADE PARA A VIDA.

 No encontro ocorrido na Aldeia Três Palmeiras, nesse fim de semana, com a participação de várias lideranças indígenas,  inclusive de outros estados, reafirmou a importância da organização indígena; seja ela no campo social ou da religiosidade. Os txamëe, líderes religiosos, abordaram a importância da espiritualidade e dos valores que norteiam a vida de seu povo. 





Entre os presentes, se destacaram, o Cacique Sr. Agostinho e sua esposa, dona Marciana, da Aldeia Araponga, Paraty. Também estava representada a Aldeia Bracuy, de Angra dos Reis.




As palavras proferidas por esses líderes, foi de encontro com a sensibilidade de cada um que se encontrava presente, de modo a aflorar o pranto de muitos. Momento em que nos remetem às atrocidades, com que são tratados os indígenas no Brasil.

O Cacique Djekupe Marcelo Guarani, manifestou grande preocupação com os projetos governamentais, que querem retirar os direitos conquistados pelos povos indígenas, o que afeta profundamente suas vidas, já fragilizadas, pela falta de respeito para com o índio.

O evento foi uma realização do IPHAN, Museu do Índio, Funai, Associação Guarani Mboapy Pindo. Aldeia Três Palmeiras, Aracruz, ES.

sábado, 2 de setembro de 2017

Antonin Artaud e Jim Morrison


Antonin Artaud é um escritor francês, teatrólogo e desenhista. Antes de morrer ele fez um programa de rádio em 1948; que não foi ao ar porque os diretores da rádio nacional francesa, ficaram apavorados pelos gritos e maluquices como o qual Artaud interpretava seus textos. E quando ele fazia "palestras", deslizava da linguagem falada para a linguagem corporal; imitando, por exemplo, alguém que morre da peste; o que deixava o público perplexo: louco ou gênio?

Artaud teve mais influência no teatro nos Estados Unidos, no Japão e no Brasil; mas não na França. O Living Theater, que vi em 1969, tirando seu lado erótico exibicionista, deve muito a Artaud; inclusive nessa reabilitação do corpo.

Jim Morrison (The Doors) entrou nesse trem artaudiano. No caso, se fala muito em expressão corporal: Artaud é o pai da geração de 68; mas com uma grande diferença: se tanto Jim Morrison como Artaud trabalham com o corpo, Jim usa a vertente dionisíaco-erótica desse corpo; e Artaud apresenta um outro corpo: "Um corpo sem órgãos" e, pois, com desprezo, latido do próprio corpo; considerado como essencial mas ao mesmo tempo como uma entidade idiota quando é sexuado. Artaud, para chegar ao "homem - em si" o castra. Jim Morrison, faz o contrário; ele exalta seu erotismo e, paradoxalmente, se encontra no mesmo ponto: o corpo atuando como o sem órgãos e o fumacento espírito relegado fora de todos os palcos.

Tanto Artaud quanto Jim Morrison, eram homens do palco; do corpo no palco, e o rock era uma música dos ritmos corporais. O corpo pensa no rock de Jim Morrison e no teatro de Artaud.

Por isso que "papai" Artaud e "filhinho" Jim Morrison, escandalizavam e hipnotizavam corporalmente o público. E, paradoxalmente, essa denegação da espiritualidade desemboca em algo que tem uma dimensão de estranha transcendência.

Eu o vi por acaso, Artaud, naquela sua apresentação no rádio em 1972 (desde 48 estava proibida) e fiquei completamente transtornado como se os textos e a voz metálica, fora dos padrões de Artaud, tivesse o poder de fazer surgir em mim o meu avesso. Mesma sensação quando Jim Morrsion com seu vozeirão e sua poesia grita a ausência de sentido, ou o sentido exclusivo da vida como ela é.

São dois xamãs que fizeram o público entrar em transe; o que, aliás, pode acontecer cada vez que você tem uma arte digna desse nome - a música e o canto - sendo o caminho mais direto. E Artaud, no rádio, inventou uma música que lembra mais os japoneses (xilofonia) minimalistas; enquanto o rock é, aparentemente, o contrário: o (maximalismo), o excesso, o orgasmo. Artuad consegue uma espécie de transe pela estranheza minimalista; Jim Morrison pelo o oposto, mas o resultado é o mesmo, o público termina andando ao lado do seu próprio eu, ao lado do seu próprio corpo, se tornando o outro que ele era mas não sabia ("Eu é um outro" A. Ribaud).

Mesmo com suas diferenças, Artaud e Morrison se encontram num grande grito de raiva; de revolta diante de uma humanidade de "cachorros molhados". O sistema não gosta que você seja você. Ele quer marionetes, uns fantoches que se pode manipular à vontade e até alguns artistas traidores colaboram com essa farça que hoje renasceu com o nome de globalização.

Alguém que realmente é ele mesmo já é uma bomba. Nem precisa abrir a boca, porque o sistema, a sociedade coca-cola, já o estigmatizou e tem um método e uns agentes para fabricar sua loucura ou sua morte, camuflado em suicídio ou overdose.

Não admiro o Artaud e Jim Morrison como "poetas malditos", mas como poetas autênticos; mesmo se essa autenticidade pode escandalizar certos doutores e as senhoras de nosso senhor. Quem é realmente o que ele é, sempre é um escândalo para os fantoches, os mascarados sociais.

Artaud - Jim Morrison, nunca vão parar de gritar até além de suas mortes. Somos alguns que recolhem esses gritos e também gritamos cuspindo na insuficiência mumificada do mundo globalizado.

Gilbert Chaudanne - escritor, pintor, crítico de arte e  de literatura